Coleção Opera Urbana - Cine- Bijou trecho -reduzido

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Histria oral, Cronica e interatividade Quatro ousados livros com libreto (guia cultural) e site exclusivo (www.operaurbana.com.br) voltados aos jovens das grandes cidades. A proposta desenhar um perfil moderno dos espaos urbanos, onde ilustraes revelam paisagens do dia a dia, dialogando de modo ativo com o leitor.

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Uma das minhas atividades inteligentes era ir ao cinema. Os filmes que eu queria ver os filmes bons, afinal eram proibidos para menores de dezoito anos. Naquela poca, 1974, 1975, a censura por faixa etria era levada bastante a srio. Os filmes podiam ser para maiores de dez, catorze, dezesseis ou dezoito anos. No era nada fcil entrar num cinema sem ter a idade certa. Eu tinha cara de criana. No conseguiria enganar ningum se quisesse entrar num filme proibido. S de tentar, j me sentiria idiota. S de querer ver determinado filme proibido, eu me sentia inteligente. S de no tentar, me sentia idiota tambm. 6 bijou_MIOLO.indd 6 10/24/12 5:43 PM bijou_MIOLO.indd 7 10/24/12 5:43 PM Mas era pior. Estvamos em plena ditadura militar. O governo proibia filmes mesmo para quem tinha mais de dezoito anos. Nem os adultos puderam assistir a alguns filmes importantes daquela poca. Laranja mecnica, por exemplo. A cena da orgia entre bandidos adolescentes e uma garota nua no agradou aos censores. 10 bijou_MIOLO.indd 10 10/24/12 5:43 PM bijou_MIOLO.indd 11 10/24/12 5:43 PM bijou_MIOLO.indd 16 10/24/12 5:43 PM Mas sexo no era a principal preocupao da censura. O problema central era poltica. Filmes denunciando tortura. Filmes falando de greve. A classe operria vai ao paraso. O caso Mattei. Filmes falando de terrorismo, de comunismo, de sindicalismo. Proibido para crianas, adolescentes, adultos e velhos. Como adolescente, eu enfrentava ainda as proibies normais, as proibies democrticas, digamos assim: filmes que a ditadura permitia aos adultos, mas que os menores de dezoito no podiam ver. 17 bijou_MIOLO.indd 17 10/24/12 5:43 PM bijou_MIOLO.indd 18 10/24/12 5:43 PM S havia um cinema em que deixavam a gente entrar: o Cine Bijou, no centro de So Paulo, na praa Roosevelt. O Cine Bijou exibia sempre filmes de arte; festivais de diretores famosos, que meus pais, os amigos dos meus pais e os professores da escola muitas vezes recomendavam. bijou_MIOLO.indd 19 10/24/12 5:44 PM No me lembro do primeiro filme para maiores de dezoito que vi. Acho que foi Perdidos na noite, a histria de um rapaz meio ingnuo do Oeste que vai tentar a vida em Nova York, como garoto de programa. Um amigo tuberculoso e manco o acompanha em viagens de nibus pelos Estados Unidos. A histria acaba mal, como toda histria adulta. Lembro-me melhor do meu primeiro filme para maiores de catorze anos. Chamava-se O mensageiro. Assisti com uns dez ou onze, e essa era a idade do personagem principal. um menino da Inglaterra, no comeo do sculo xx, que leva 24 bijou_MIOLO.indd 24 10/24/12 5:44 PM cartas de uma moa para um sujeito, e as cartas de resposta que o sujeito escreve para a moa. Nenhum problema, exceto o bvio: o cara era um jardineiro, e a moa era nobre, da famlia dos donos do castelo onde o jardineiro trabalhava. Dito assim, parece banal. Mas o garoto levava e trazia as cartas sem saber direito o que estava acontecendo entre os dois. E eu, como espectador, tambm no adivinhava muito: o mundo dos adultos, no filme, era fechado. Mundo em que moas tinham vontade de transar com jardineiros, e isso, claro, para os adultos, era coisa impensvel; para as crianas, incompreensvel. 25 bijou_MIOLO.indd 25 10/24/12 5:44 PM bijou_MIOLO.indd 32 10/24/12 5:44 PM Continuei frequentando o Cine Bijou. Em 1975 a represso poltica ainda era violentssima. Foi a poca em que mataram o jornalista Vladimir Herzog. Ele era do Partido Comunista Brasileiro. Foi preso num dia e no dia seguinte estava morto. Disseram que ele tinha se enfor cado na cela. Mas todo mundo sabia que na verdade ele tinha sido torturado at a morte. Foi tambm naqueles dias da morte do Herzog que prenderam o nosso professor de geografia, o Mauro. Na escola, as pessoas comentavam: ele estava sendo torturado. Veio depois a notcia de que tinha sido solto; que no tinha denunciado ningum, mesmo sob tortura; e que no voltaria a dar aulas para ns. Esse o resumo da histria. 33 bijou_MIOLO.indd 33 10/24/12 5:44 PM Na mesma rua das boates existia um teatro, ou melhor, uma sala de concertos. Naquela poca, todo grande pianista, toda grande orquestra, quando vinha a So Paulo, ou dava recitais no Teatro Municipal ou se apresentava l, no Cultura Artstica. Eu gostava de msica clssica pelo mesmo motivo que no sabia danar. Eu andava sempre de guarda-chuva nessa poca. Achava normalssimo andar sempre de guarda-chuva, e no reparava que as pessoas reparavam nisso. Muito tempo depois, encontrei de novo o meu antigo professor Mauro. Ele me olhou, demorou um pouco para lembrar quem eu era, e perguntou: U parou de usar guarda-chuva? Eu tinha parado, mas no sabia que usava tanto assim. O fato que comecei tambm a frequentar o Cultura Artstica. Uma noite, fui ver o concerto de um dos maiores pianistas do mundo. Era um pianista latino-americano, meio gordo, com bigode pintado de preto, muito simptico, e famoso por enfrentar sorrindo as peas mais difceis do repertrio clssico. Coisa assustadora: os estudos de Chopin, que j so bastante difceis quando tocados com as duas mos, ele tocava num arranjo s para a mo esquerda. bijou_MIOLO.indd 44 10/24/12 5:45 PM bijou_MIOLO.indd 45 10/24/12 5:45 PM Marcelo Coelho nasceu em So Paulo, em 1959. Formado pela Universidade de So Paulo (usp) em cincias sociais, mestre em sociologia pela mesma instituio. Ensasta, escritor e jornalista dedicado sobretudo rea de cultura , crtico de cinema e membro do conselho editorial da Folha de S. Paulo, na qual assina semanalmente uma coluna no caderno Ilustrada, desde 1990. Tempo medido (Publifolha, 2007) rene suas melhores crnicas publi adas no jornal. Traduziu obras c de Voltaire e Paul Valry e escreveu dois livros de fico, Noturno (Iluminuras, 1992) e Jantando com Melvin (Imago, 1998). autor ainda dos infantis A professora de desenho e outras histrias (1995) e Minhas frias (1999), ambos publicados pela Cia das Letrinhas. bijou_MIOLO.indd 60 10/24/12 5:46 PM Caco Galhardo nasceu em So Paulo, em 1967. Formado em comunicao pela faap, iniciou sua carreira como cartunista na dcada de 1980. autor dos livros O banquete As gostosas de Caco Galhardo (Barracuda, 2004), em parceria com o escritor Marcelo Mirisola, Dom Quixote em Quadrinhos (2005), Crsh (2007) ambos publicados pela editora Peirpolis e Bilo (Girafinha, 2008). Suas tirinhas podem ser vistas regularmente na Folha de S. Paulo. Para criar as ilustraes deste Cine Bijou, Caco recuperou cartazes de filmes clssicos da poca, como Laranja mecnica, de Stanley Kubrick, e O ltimo tango em Paris, de Bernardo Bertolucci, alm de cenas marcantes como as de Morte em Veneza, de Luchino Visconti, e Os amantes de Maria, de Andrey Konchalovskiy, a imagem que fecha a edio. A capa foi inspirada em Viver a vida, de Jean-Luc Godard. O artista trabalhou ainda com referncias fotogrficas de poca para desenhar lugares e pessoas, como o Cine Bijou e o teatro Cultura Artstica, e o jornalista Vladmir Herzog. bijou_MIOLO.indd 61 10/24/12 5:46 PM